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quinta-feira, 14 de março de 2013

Um Songo - Manoel de Barros

As Bençãos - Manoel de Barros

Manoel de Barros


Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu no dia 19 de dezembro de 1916, à beira do rio Cuiabá (MT). Morou também em Corumbá (MS) e no Rio de Janeiro. Atualmente, vive em Campo Grande (MS).

Seu pai, João Venceslau Barros, possuía uma fazenda no Pantanal, onde o menino Manoel, carinhosamente chamado de Nequinho, cresceu brincando. Frequentou colégio interno aos 8 anos em Campo Grande e, depois, no Rio de Janeiro. Não gostava de estudar até descobrir os livros do Padre Antônio Vieira: “A frase para ele era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança”. Ao longo dos anos passados nos internatos, leu avidamente os clássicos atentando para a escrita e as estratégias narrativas por eles produzidas.

Logo que deixou o colégio, Manoel de Barros leu Une Saison en Enfer, de Arthur Rimbaud, verificando que a produção do poema poderia resultar de jogos sinestésicos, com forte mistura entre percepções afeitas a sentidos diferentes – a cor que evoca a imagem, o som capaz de evidenciar o aroma etc. Engajou-se politicamente e entrou para a Juventude do Partido Comunista  Brasileiro. Como havia pichado o slogan “Viva o comunismo” numa estátua, no momento em que ia ser preso pela polícia, a dona da pensão onde morava intercedeu pelo jovem publicista. O policial soube que o rapaz tinha escrito um livro e levou o único exemplar de Nossa Senhora de minha escuridão com ele, em troca da liberdade do moço de 18 anos.

Após uma decepção com o líder comunista Luiz Carlos Prestes, quando este apoiou Getúlio Vargas, Manoel rompeu com o PCB e foi para o Pantanal. Pouco tempo depois, viajou pela Bolívia, pelo Peru e morou um ano em Nova York, onde fez cursos no Museu de Arte Moderna. Nessas andanças, o escritor foi aprendendo o sentido de liberdade que começou a conhecer quando saiu do colégio, alimentando sua poesia com imagens e sempre se encantando com quadros e filmes. Ao retornar ao Brasil, conheceu a mineira Stella, com quem se casou em três meses. Dessa relação, que perdura até a atualidade, nasceram três filhos: João, Pedro e Marta.

Manoel de Barros escreveu o primeiro poema aos 19 anos e morou no Rio de Janeiro até terminar o curso de Direito, em 1949. O seu primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, foi feito artesanalmente por amigos, numa tiragem de 21 exemplares. Nos anos 1980, sua poesia começou a aparecer ao público através de nomes como Millôr Fernandes, Fausto Wolff e Antônio Houaiss. Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais importantes do Brasil e mais originais do século.

Dentre os prêmios recebidos pelo poeta, encontram-se: Prêmio Orlando Dantas pelo livro Compêndio para uso dos pássaros, em 1960; Prêmio Nestlé pelo Livro sobre nada, em 1997; Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria Poesia, com o livro O guardador de águas, em 1989.

(Adilson Citelli)

terça-feira, 12 de março de 2013

Literatura Sul-mato-grossense

Reflexões da Profª Zélia R. Nolasco responde à questão de como pensar em uma literatura e uma identidade sul-mato-grossense, se a pouco tempo, existia um só: o Estado de Mato Grosso. Transcrevo o trecho em que a Profª Zélia reflete sobre literatura e identidade sul-mato-grossense.


Literatura sul-mato-grossense: reflexões

Zélia R. Nolasco

*O estudo de literatura é compreendido como uma grande reserva de cultura e também como ideal de formação humana, daí o fato de ressaltar que o professor de literatura era visto como um "professor de civilização". Desse modo, refletir sobre literatura e identidade sul-mato-grossense é reforçar que o conhecimento literário produzido historicamente ocupa na prática cultural um lugar de privilégio, pois se coloca como objeto de interrogação, de dúvida e de pesquisa. Diante disso, como pensar em uma literatura e uma identidade sul-mato-grossense, se a pouco tempo, existia um só: o Estado de Mato Grosso?

Com a criação do Estado de Mato Grosso do Sul, no ano de 1977, observa-se o início de uma busca desesperada por uma identidade. Ao analisarmos esse movimento, parece-nos que uma decisão que foi tomada pensando na afirmação de um povo, simplesmente, tomou o caminho oposto, passando a negar esse mesmo povo. Ou ainda, e o mais provável é que esse mesmo povo tenha se sentido negado, passando a ser um corpo estranho em sua própria terra. É como se de repente, a população do Estado tivesse perdido o chão simbólico que já existia e tudo tivesse ficado para o outro, o antigo, o Estado de Mato Grosso, o que permaneceu com a tradição histórica e literária, pelo menos na concepção de alguns. Sendo assim, o novo Estado de Mato Grosso do Sul teria que criar ou recriar uma nova identidade para o seu povo?. Temos duas possibilidades de análise. Em primeiro lugar, se formos pela concepção de que o Estado é um recém-nascido, realmente, a opção será a de criar uma identidade, uma história e também uma cultura. Em segundo lugar, se a concepção for a de que o Estado apenas foi dividido em partes distintas: Sul e Norte, não há porque criar aquilo que o povo já tem, pois o fato de ter o seu território dividido não quer dizer que tenha deixado de existir, que tenha perdido sua história, sua cultura, sua memória.

A segunda possibilidade parece-me a mais sensata, não vejo motivos para que os sul-mato-grossenses tenham tamanha crise de identidade. Até porque os aspectos históricos culturais e identitários não se mudam simplesmente por uma decisão político-administrativa. Acredito que essa preocupação e crise de identidade fazem parte do mundo de algumas pessoas, principalmente, daquelas que no momento da divisão do então Estado de Mato Grosso já tinham mais que vinte anos. Faço essa afirmação, pois conforme Melchior de Vogué: "O século começa sempre para os que têm vinte anos" (VOGUÉ, 1950, p.43). De repente, aí está a explicação: as pessoas com mais idade se sentiram desterradas com a divisão do Estado enquanto que esse sentimento não é perceptível entre as pessoas mais jovens, elas não apresentam essa crise de identidade, simplesmente, são sul-mato-grossenses.

Aliás, na busca por uma afirmação da cultura e da literatura sul-mato-grossense estão duas reivindicações: uma, do Conselho Estadual de Educação do MS, Parecer nº. 235/2006, sobre a inserção da cultura sul-mato-grossense na Educação Básica do Sistema Estadual de Ensino; a outra, uma audiência pública: A literatura sul-mato-grossense, na Câmara Municipal de Dourados, no dia vinte e três de outubro de 2009, para se discutir o ensino da mesma nas escolas da rede pública. Mas, bem sabemos que: "Uma identidade nunca é dada, recebida ou atingida" (DERRIDA, 1996, p.53). Logo, por mais que a cultura e a literatura sul-mato-grossense sejam estudadas e divulgadas nas escolas, isso não fará com que os estudantes se sintam mais sul-mato-grossenses em função disso. Se bem que o que está embutido, principalmente, na segunda reivindicação, é a publicação de escritores e a produção de um mercado para os livros aqui produzidos com incentivo do Governo do Estado e, também, a criação de uma disciplina de literatura sul-mato-grossense.

O investimento em cultura é sempre muito positivo e a literatura é a mais viva expressão cultural de um povo. Porém, é importante ficarmos atentos a essa última proposta, pois ao criarmos uma disciplina de literatura sul-mato-grossense, abre-se a possibilidade de que seja criada também uma disciplina de literatura paulista, outra de literatura paranaense, outra de literatura gaúcha, e assim, sucessivamente, cada Estado com sua literatura. Já imaginaram, no caso do MS, se cada imigrante que aqui se encontra quiser que a sua literatura de origem seja ministrada nas escolas para seus filhos? Será que não estamos caminhando para um apartheid literário/cultural? Será que estudar os escritores regionais dentro da disciplina de Literatura Brasileira não basta? Enfim, o que move o mundo são as perguntas e não as respostas, mas um bom caminho para encontrá-las é através da leitura.




segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Produção Literária de Mato Grosso do Sul

O livro de autoria de Maria Glória Sá Rosa e Albana Xavier contou com recursos do Fundo de Investimento Cultural (FIC).

Para produzirem à obra as duas conversaram com 21 escritores e quatro críticos da literatura regional que lhes contaram um pouco sobre o universo daqueles que se aventuram no mundo das letras, na intenção de produzir não apenas narrativas que desperte a imaginação das pessoas, mas que também registre no papel a singularidade do povo pantaneiro.

O livro de 350 páginas é o primeiro do gênero que disseca a questão da relação entre escritor e palavra e a luta dos autores que buscaram a valorização do seu trabalho.

Segundo a professora Glorinha (Maria da Glória Sá Rosa), trata-se de um livro escrito a quatro mãos, pela parceria entre ela e Albana Xavier, que começou nos anos de 1970, quando se conheceram na Faculdade Dom Aquino de Filosofia, Ciências e Letras, tendo em Albana uma aluna brilhante do curso de Letras, criadora de textos reveladores dos mistérios de Clarice, Drummond, Guimarães Rosa, dentre outros. Já produziram juntas uma coleção de livros didáticos, para o ensino médio, em que procuraram amenizar a aridez das regras gramaticais, com a introdução da arte em todos os seus aspectos e que foi adotado em nível nacional.

"A Literatura Sul-mato-grossense sob a ótica de seus construtores" brotou do desejo de caminhar ombro a ombro com os sujeitos da pesquisa, os criadores de histórias, poemas, contos, numa tentativa de desbravar os caminhos da escrita pela força de depoimentos em que a memória organizou, de forma cronológica, as lembranças definidoras dos traços distintivos de uma literatura multifacetada, onde cabem influências de toda ordem. Ainda, como explica a Profª. Glorinha, nasceu desse convívio um compromisso afetivo entre os escritores e as autoras do projeto, no qual as introspecções e observações foram definindo e aprofundando laços de admiração e amizade, de tal forma que o trabalho acabou transformando-se em fonte geradora de prazer e de descobertas imprevisíveis.

A leitura foi o grande estímulo, os mestres em que se inspiraram na composição de suas obras. A pobreza nunca serviu de obstáculos à ambição de escrever e de publicar. O meio ambiente rural, a solidão pantaneira, o brilho da paisagem são reinventados nas obras de Manoel de Barros, Augusto Cesar Proença, Abílio de Barros, Geraldo Ramon Pereira e Cláudio Valério. O magistério e o jornalismo funcionaram como estágio preparatório das produções de Raquel Naveira, Lucilene Machado, Orlando Antunes Batista, Adail José de Aguiar, Flora Thomé e José Pedro Frazão.

As perseguições políticas reacenderam em Brígido Ibanhes o espírito de luta, a vontade de transformar o sofrimento em matéria de romance. O hábito de fazer diários, as leituras de Pedro Nava foram responsáveis pelos livros de memórias de Samuel Xavier Medeiros. Reginaldo Araújo, Guimarães Rocha e Rubênio Marcelo representam a força nordestina presente em poemas, romances, histórias de cordel embasadas em registros de vida. O senso de humor a ironia são a tônica das narrativas de Heliophar Serra e José do Couto Pontes, para os quais a magistratura serviu de pano de fundo para a recriação de experiências relatadas com a força das lembranças guardadas nas dobras da memória.

Com informações do Portal MS Notícias